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sábado, 17 de janeiro de 2009

Desencanto imprevisto

Sabe aquelas situações em que você sabe que deveria estar sentindo determinada coisa e na verdade não se sente nada daquilo que manda o script? Pois é, essas situações podem acontecer na vida de qualquer um. Nos vemos obrigados a atuar nesses momentos ou passar por inapropriado na sociedade. O pior não é quando nós não nos comportamos como os outros esperam, mas quando você percebe que suas próprias expectivas são frustadas, como comprar um sanduíche nesses fast food e ver que o tamanho real deles é bem aquém do que você tinha em mente.

Muito do que esperamos da vida é ditado pela sociedade, impressos em nossas mentes pelos filmes, novelas, músicas, o "todo mundo diz". Construímos nossas expectativas a partir disso, formamos nossos sonhos, cristalizamos padrões para o que nem sabemos como será. A formalização dos sentimentos, como se tudo fosse previsto, o que deve ser para ser considerado normal.

Lembro do meu primeiro beijo. Foi a coisa mais frustrante que já fiz. Na época tinha 13 anos e queria saber como era beijar, afinal nos filmes sempre tinham aquelas cenas molhadas onde o casal grudava os beiços e rodava a cabeça com uma música melosa no fundo. Toda novela tem aqueles beijo dos mocinhos em que as televiciadas suspiram de emoção. Beijo portanto parecia ser a coisa mais encantadora, mais gostosa que há. Talvez, pensava eu, seja mais gostoso que sorvete, ou melancia, ou aquele biscoito que eu amava na época. Beijo deve ser bom demais! Na minha curiosidade achei outra pessoa nesse mesmo desespero que queria deixar de ser boca virgem, queria saber como é. Um perguntou pro outro se queria experimentar. Bocas se encontraram, molhado. Um, dois, três; é acho que valeu. E aí? Nada. Cadê a música no fundo, as borbulhas no estômago. Cadê a explosão de sensações e sentimentos??? Pelo menos alguém gravou pra sair na televisão? Nada, nada, nada. Beijar era CHATO! Sem graça, sem gosto, melhor comer uma coisa gostosa. Lembro que pensei que as pessoas que gostavam de beijo eram ridículas e que talvez a vida não tenha tanta graça como eu imaginava. Nunca mais nos beijamos, pra falar verdade perdeu a graça.

Outros momentos de desencanto foram quando algumas pessoas conversando comigo ou perto de mim e começam a chorar e eu simplesmente não sentia nada. Nada! Sabia que não era apropriado mostrar minha indiferença, portanto tinha que fingir minha compaixão, minha tristeza solidária. Tentar colocar umas lágrimas pra ajudar a mostrar minha suposta comoção. Talvez pior do que externar falsas lágrimas seja engolir gargalhadas inconvenientes. Principalmente em igrejas ou momentos solenes sinto vontade de rir. Horrível. Quando é necessário a seriedade, corações contritos, aquela hipocrisia toda, aquela formalização me faz cair na gargalhada. Não é de propósito, não sou de provocar nem desafiar ninguém. Mas é terrível. Essas coisas me fazem sentir como sou um ser humano esquisito. Certas peculiaridades que não mostravam na TV me assustavam. O mundo não é tão simples quanto imaginávamos. Certas emoções sublimes que se imagina ter em algumas ocasiões simplesmente não surgem e outras que não constam no calendário formal surgem com toda força.

Às vezes o simples encanta mais que a pompa, o inesperado nos surpreende trazendo o verdadeiro encantamento que foge dos estereótipos tornando as coisas reais. Ver beleza na realidade é para poucos. É fácil se apaixonar por um personagem, pela idealização de um momento perfeito, pela utopia das sociedades. Essas coisas nos impulsionam a melhorar e de certa forma interfere na realidade. Mas padrões são apenas padrões, convenções de algumas pessoas que resolveram formalizar certas coisas. A ilusão é um ponto de vista da realidade ou o que esperamos que ela seja ou a fuga dela. Sempre partimos da realidade, sempre. Conseguir ver beleza nela é a verdadeira arte.

Nos meus momentos mais encantadores o que mais me marca é o silêncio. Aquele silêncio não pela falta de dizer, mas por que palavras se tornam insuficientes pra externar as sensações. Aonde a conexão vai além do que se quer expressar, mas sim no que se sente. No que vem de dentro. Esse nível é difícil de alcançar por isso é tão belo e encantador. Palavras são escolhidas, dissimuladas; não que um olhar, uma expressão não possa ser fingida, mas a mensagem enviada através do silêncio penetra mais fundo. Creio que sabemos interpretar melhor olhares do que palavras. Vivi encantos inesperados e esperados. Às vezes os padrões valem, o esperado acontece, mas estar preparado para o que vai além do roteiro ajuda muito.

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