Meu nome é Irineu, nasci a 62 anos numa família de 6 irmãos, eu fui o quinto. Éramos bem pobres, morávamos numa casa tão pequena que mal cabíamos nela. Frequentávamos uma igreja evangélica tradicional, o pastor era muito respeitado por nós. Cresci respeitando todas as regras, pagávamos o dízimo certinho, não assistíamos tv, nos vestíamos de calça e blusa comprida mesmo no calor de rachar. Tudo isso era válido pelo céu no porvir.
Nunca fui muito bonito e nem era rico, o pastor pregava que primeiro tínhamos que buscar o reino dos céus. Não tínhamos vontade em acumular bens que a traça corrói e o ladrão rouba. Comecei a trabalhar numa padaria como ajudante do padeiro, aprendi a fazer bolos, pães e salgados. Aos 19 anos sem nunca ter beijado e nem poder me masturbar sem ter uma crise de consciência terrível estava louco para casar. Mas as meninas da igreja procuram os homens com mais dinheiro, um padeiro não é algo muito atraente, másculo. Surgiam umas garotas que chamavam de infiéis que até sairiam comigo, mas eu me recusava, afinal pra que cair em tentação e perder a salvação? Meu coração doía quando via as moças que eu achava que poderia ser minha futura esposa saindo com outros, namorando, casando e eu sem perspectiva. O pastor dizia pra ter paciência e buscar as coisas do alto que tudo seria acrescentado. resolvi então me apegar mais a fé. Juntei dinheiro e paguei um curso livre de teologia, me aprofundei naquilo que acreditava, participava de congressos religiosos, jejuava e orava, fazia vigílias e me entreguei de corpo e alma. Os anos passavam não me tornei pastor mas pregava na igreja nos dias de semana, ajudava na tesouraria da igreja e também na organização de passeios. Mas dentro de mim ainda não tinha as respostas. Com o tempo sentia que a minha pregação era um repertório vazio e que não me acrescentava, dizia coisas que as pessoas á tinham ouvido, a maioria ia no culto durante a semana para ter algo para ir. ME achava infiel por ter esses pensamento, tinha muito, muito medo de ir para o inferno.
Aos 28 anos conheci aquela que seria minha esposa. Ela cantava no coral, era cabeleireira tinha 23 anos e tinha se separado de um namorado que tinha arranjado outra mais bonita. Como estava desesperado e virgem encurtamos o namoro, quando fiz 29 anos casamos. Não a amava, nem ela a mim mas estava muito feliz em poder fazer sexo sem ter o peso do inferno. Ela era uma pessoa boa, gostava dela, mas amor mesmo isso não aconteceu, mas não esperava mais essas coisas, o que tinha me bastava. Alugamos uma casa pequena que matávamos para sustentar. Diminuí as pregações para fazer hora extra na padaria e dar conta das prestações. Depois de uns 2 anos ela começou a estranhar porque não engravidava. Entramos em campanha na igreja, mais jejum e oração, benção do pastor e exames médicos. Nessa pesquisa para saber o porquê de não engravidar acabou sendo despedida do salão, menos grana e mais remédios. Depois de um ano de investigação e tentativas frustradas o médico disse que só conseguiríamos se tentássemos uma fertilização in vitro, procedimento caro demais na época e não havia garantias que daria certo.
Entreguei nas mãos do Senhor. Um milagre poderia acontecer, continuava a orar, mas uma parte de mim já sabia que talvez tanto fervor não vá mudar a vontade divina, talvez Ele queira assim. Passou 1 ano e nada de milagre, eu já tinha desistido, embora muito angustiado. Ver todos com filhos e eu não, mas tem a história de Abraão, seria eu chamado por Deus e receber uma benção como ele? Eu um Abraão? Sabia que não, mas demonstrava para os outros minha fé, não parecia duvidare nem me questionar. Era um exemplo de homem que segue o Senhor, estava juntando muitos tesouros no céu. Só que minha mulher não se conformava. Dizia que tínhamos quefazer empréstimos, morar com parente, fazer tudo para engravidar. Mas isso não me parecia sensato, lutar contra a vontade divina, colocar tudo em risco por um procedimento que teria poucas de dar certo em uma única tentativa. Milagres poderiam acontecer, só esperar a vontade do Pai. Não demorou muito e ela resolveu que não dava mais certo, foi embora e me deixou sem sexo. Pode até parecer estranho, mas essa foi a primeira coisa que pensei quando ela saiu. depois veio a saudade, doía. Orei, orei muito. Conversei com o pastor que aconselhou a orar e aceitar a decisão das pessoas e esperar que tudo se ajeite. Depois ela poderia voltar e até termos nossos filhos se essa a vontade de Deus. esperei, esperei e ela não voltou. Quando soube que ela foi morar com outro quase morri. O cara era mais bonito que eu e tinha dinheiro. era um divorciado dono de uma loja de variedades do lado da padaria que trabalhava a anos. Enquanto orava as lágrimas desciam tentando entender. Na época o pastor dizia que não era aconselhável casar de novo, que divórcio não era o que Deus planejava para seus filhos. Não apareceu ninguém também, mas eu estava pior que antes. Depois que soube como é bom ao ver as mulheres só associava a sexo. A abstinência me fez muito mal. Emagreci muito e tremia. Tive que ir num psiquiatra e tomar remédios tarja preta. Depois de pouco tempo soube que ela tinha engravidado através do tratamento recomendado. Dessa vez eu quis morrer. O filho que era para ser meu ela teve com outro. Ela era uma pessoa boa, mas pensava que estava em pecado, tinha saído da igreja, mas ela estava feliz e eu não. Nasceram gêmeos. ela nunca esteve mais bonita e mais feliz de uma forma que nunca esteve do meu lado.
Os anos passaram, não voltei a pregar porque ventos novos surgiram na igreja e como estava deprimido não pude acompanhar as transformações. Continuava na parte financeira da igreja e percebi como tudo começou a crescer. Não havia mais um pastor, mas pastores que ficavam por um tempo e saiam. Era tudo bem mais profissional, chegou um momento em que um simples padeiro se tornou obsoleto na tesouraria, fiquei na parte de apoio e acolhida. O tempo era cruel comigo, fiquei careca, seco e tinha crises de pânico. Aquilo tudo me valia porque achava que teria o céu quando morresse. Com 50 anos desisti de vez de ter uma família. Estava velho, pobre e feio. Mas eu tinha Deus e a certeza que tinha feito tudo o que mandavam fazer. Depois eu vi que as coisas foram mudando, as roupas foram ficando mais justas, as pessoas casavam e recasavam na igreja, o ficar era aceito e outros costumes foram sendo agregados. Valores nos quais me baseei a vida foram relativizados, caducaram. Eu também me senti caduco. Se fosse com os costumes de hoje eu teria feito outras escolhas, alargaram o caminho para o céu, poderia ter sido feliz, ou tentado, porque eu não me esforcei aqui tentando chegar limpo lá em cima. Mas na verdade com tanta tristeza e amargura não me sinto puro, me sinto sujo de tristeza e decepção. Com 58 anos tive um ataque horrível e fui internado numa casa de repouso, no hospício vi pessoas piores do que que recebiam visitas. Nem isso eu recebi, não tinha família. Os parentes tinham saído da cidade, alguns irmãos foram visitar por obrigação uma única vez, foi frio. Senti que estava perdido, esperava o céu, mas tinha ganhado o inferno na terra por ser covarde. Fiquei 6 meses internado. Era digno de pena. Consegui voltar a trabalhar e alguns estranhos me ajudaram a me reerguer, minha ex esposa foi me ajudar. Foi caridosa, ela merecia o céu, mas no fundo queria que ela fosse pro inferno por ter me abandono e ter conseguido ser feliz como eu nunca fui. Seu marido me ajudou, seus filhos me fizeram companhia e me alegraram. Depois de mais firme dispensei a ajuda, sentia vergonha de mim por odiá-la, mas estava muito grato por tudo. Eu que não bom suficiente para ela
Quando completei 60 anos tive um infarte. Sabia que estava tendo um e não quis buscar ajuda médica. Queria morrer e ir pro céu. Era madrugada, estava me preparando para ir pra padaria fazer a primeira fornada e senti a dor. Pressenti algo ruim naquilo e fiquei feliz. Nem saí de casa porque sabia que ia piorar e as pessoas poderiam me ajudar. Deitei e esperei enquanto orava. Perdi os sentidos e não vi nada, tudo preto, sem luz, sem anjos, sem túnel, sem querubins. Depois de 4 dias acordei numa CTI todo entubado. Tinham me achado as 11 horas em casa, estranham minha ausência e foram me procurar, como tinha ficado doente já estavam em alerta. Dois de meus irmãos foram me ver e minha ex mulher. Realmente acharam que eu ia morrer, saíram de suas cidades para me ver, foi mesmo muito grave, pena que deram viagem perdida porque não teve enterro. Depois disso passei por 2 cirurgias cardíacas, o coração foi lesionado para demora de atendimento. Não tinha jeito a solução é um transplante. Sei que vou morrer em breve e isso não me angustia mais do que a sensação de que perdi minha vida. Perdi a fé. No hospital conheci alguns ateus que explicavam como isso tudo era alienação, e juntando com o que vivi não via como negar o que eles afirmavam. Dentro de mim não sentia nada, tudo tinha mudado, desperdicei oportunidades que não voltarão. Pior, mas que perder a vida, perdi a esperança no céu que de alguma forma me consolava por ter me negado tanto. Tudo que fiz agora foi em vão.Não preciso mais orar, mas nada. O resto de vida que tenho só me serve de angustia, não tenho como fingir que acredito para ter conforto agora.Nem consigo me matar pela falta de coragem. Quando morrer isso passa, o bom e o mau passarão, a dor e o prazer. Não me sentirei mais culpado por não ter feito nada, poderia ter me culpado de algo que tivesse me feito feliz, ter tido prazer. Mas só restou a dor do passado, do presente e acabou o consolo do futuro, se bem que o nada pode ser consolador. Ou não.
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